Guia da quest
A virada desta quest
A Q1 foi esforço operacional — ir, olhar, registrar. A Q2 é esforço intelectual: abstração e raciocínio sobre o que foi visto. A equipe volta a um dos espaços observados e procura conversar com quem entende do assunto.
Muda também quem você procura: na Q1 você observou qualquer um; aqui você busca quem tem a dor e quem conhece o terreno.
Problema: a definição operacional
Algo que incomoda significativamente as pessoas observadas. O teste: se o problema é de fato relevante, elas estariam dispostas a pagar ou adotar uma solução.
O problema não é a ausência de solução. “O problema da Fulana é que ela não tem um sistema pra fazer isso” não é problema — é a sua solução escrita ao contrário.
A escala de intensidade
Todo problema levantado precisa ser classificado. A escala usada na entrevista:
|
Significado |
| must-have |
A pessoa já age para resolver. É aqui que mora oportunidade. |
| nice-to-have |
Ela gostaria, mas convive bem sem. Vai para o backlog. |
| don't need |
Não faz diferença. Sai do roteiro. |
Refino útil. Existe um modelo mais fino, o de Kano, com cinco categorias em vez de três: obrigatório (a ausência decepciona, a presença não encanta), desejado (relação linear com satisfação), encantador (encanta se houver, não frustra se faltar — são necessidades latentes, que a maioria não pensaria em pedir), neutro e anti-atributo (a presença piora a satisfação).
Por que importa: “don't need” mistura duas coisas bem diferentes — o neutro (indiferente) e o anti-atributo (rejeição ativa, às vezes a pessoa paga para não ter). E o encantador explica por que a ausência de reclamação não prova ausência de oportunidade.
O teste que separa dor real de resposta educada
Não pergunte ao cliente o que ele quer. Meça o que ele faz. — Ash Maurya
É comum a pessoa mentir na entrevista — por educação, ou porque simplesmente não sabe. O teste operacional:
- Se ela declara must-have mas não está fazendo nada para resolver, e vive bem assim → a dor não é aguda.
- Se ela usa uma solução caseira ou de concorrente e está insatisfeita → aí sim é problema que vale resolver.
Quando alguém classifica um problema como must-have e não age, há uma desconexão — e é seu trabalho notá-la.
Gambiarra
Solução improvisada que compensa a ausência de solução adequada. É o achado mais valioso da quest: ninguém improvisa por esporte.
⚠️ Duas correções ao que se costuma dizer.
1. Gambiarra valida a dor, não a disposição a pagar. Na escala canônica de cinco degraus, a gambiarra é o degrau 4: (1) tem um problema; (2) sabe que tem; (3) procura ativamente e tem prazo; (4) improvisou uma solução provisória; (5) tem ou consegue orçamento. O cliente que interessa está em 4 e 5. Gambiarra sozinha não prova que alguém pagaria.
2. A gambiarra só conta se a pessoa estiver insatisfeita com ela. Gambiarra estável e satisfatória é um problema já resolvido, não uma oportunidade.
3. A recíproca é falsa. Ausência de gambiarra não prova ausência de problema — as necessidades latentes (os “encantadores” de Kano) são justamente aquelas que ninguém pensaria em pedir, e para as quais ninguém improvisou nada.
Procure gambiarra explicitamente: pergunte “como você faz hoje quando isso acontece?” e depois “pode me mostrar?”. Olhe para o que a pessoa faz, não para o que ela diz que deveria existir.
Cliente ≠ usuário — e por que o par é grosseiro demais
A regra base: cliente é quem paga; usuário não paga.
Mas o “cliente” se decompõe em papéis distintos, e ignorar isso derruba projeto:
| Papel |
Quem é |
| Usuário final |
quem usa — e às vezes tem a menor influência na compra |
| Influenciador |
opina e é ouvido |
| Recomendador |
pode fazer ou quebrar a venda |
| Comprador econômico |
tem o orçamento |
| Decisor |
pode estar acima do comprador econômico |
| Sabotador |
perde estabilidade, verba ou espaço se o seu produto entrar |
O último é o mais esquecido e o que mais mata piloto em organização.
O que entregar: não um par binário, mas um mapa de influência — quem usa, quem decide, quem paga, quem pode barrar. Uma tabela de quatro linhas basta.
Esse mapa é insumo direto da Q3, que analisa os similares por lado (o que o comprador valoriza raramente é o que o usuário valoriza), e da Q4, que vai formalizá-lo.
Aprofundar: dois “por quê” diferentes
Existem dois encadeamentos de pergunta, e eles não são a mesma coisa. Misturá-los numa “árvore” única é erro de método.
Cinco porquês — desce na cadeia causal
Pergunta por que isso acontece, buscando a causa abaixo do sintoma. Cada etapa exige uma explicação convincente do caminho causal.
⚠️ O limite de cinco é deliberado, e a justificativa contraria a intuição de “vá até a causa primária”: limitar a cinco estágios impede que o processo perca relevância ao se afastar demais da pergunta original. Não há promessa de chegar à causa raiz — há um teto pragmático.
Laddering — sobe da funcionalidade ao valor
Pergunta “por que isso é importante para você?”, ligando atributo → consequência → valor.
O exemplo canônico, que todo aluno deveria conhecer:
Usuário pede: “quero um campo ‘código do cargo’ no relatório” → por quê → “só eu posso reportar esse dado” → por que é confidencial → “monitoramos salários para garantir que minorias sejam pagas com justiça”.
A necessidade não é um campo de formulário. É a importância de salário justo.
É o laddering que separa requisito falso de necessidade real. Sete valores costumam aparecer como motivação não dita: autoestima, realização, pertencimento, autorrealização, família, satisfação e segurança.
Qual usar quando: cinco porquês quando você quer entender por que o problema acontece; laddering quando alguém te pede uma funcionalidade e você precisa descobrir o que está por baixo.
As perguntas da entrega
- Que lugares visitaram e que pessoas entrevistaram?
- Que dores ou desejos ficaram mais evidentes? O que incomoda mais? O que é tacitamente desejado?
- Que produtos, serviços, artefatos e discursos as pessoas usam nas atividades ligadas ao tema?
- Que gambiarras (tecnológicas ou não) têm usado?
- Que artefatos ou processos já existentes poderiam estar sendo usados, e não estão?
- Quais são os 2 ou 3 problemas/desejos principais, e por que vale a pena abordá-los?
- O problema é (a) muito crítico para um grupo limitado (quais?) ou (b) importante para um grande público (quantas pessoas?)
- Qual a evidência na mídia ou em publicações do impacto ou tamanho do mercado?
A pergunta 7 é uma bifurcação estratégica, não formalidade: dor aguda em nicho pequeno e dor branda em público grande levam a projetos, modelos de receita e estratégias de tração completamente diferentes.
A entrevista de problema
Roteiro cronometrado, ~30 minutos. Detalhe completo em referencias/entrevista-de-problema.md.
| Bloco |
Tempo |
O que testa |
| Boas-vindas — preparar o terreno |
2 min |
— |
| Coletar demografia |
2 min |
segmento de cliente |
| Contar uma história |
2 min |
contexto do problema |
| Ranqueamento dos problemas |
4 min |
o problema |
| Explorar a visão de mundo |
15 min |
o problema + alternativas existentes |
| Fechamento — gancho e pedido |
2 min |
permissão de retorno + indicações |
| Documentar |
5 min |
— |
Critério de saída: você terminou quando entrevistou pelo menos 10 pessoas — por equipe, não por aluno — e consegue (a) identificar a demografia do usuário afoito, (b) nomear um problema must-have, e (c) descrever como o cliente resolve isso hoje.
Faça a conta antes de começar. A taxa típica de conversão é de cerca de um em cada dez contatos virar entrevista marcada. Dez entrevistas exigem, portanto, algo como cem abordagens — o que só cabe numa semana se a equipe inteira prospectar em paralelo, no primeiro dia. Numa equipe de sete, são quinze contatos por pessoa. Se a prospecção começar na quarta-feira, não vai dar.
Ritmo: 10 a 15 pessoas por semana. Não mude o roteiro no meio da semana — revise em lote, no fim.
Referências desta quest
| Arquivo |
Quando |
referencias/entrevista-de-problema.md |
Antes de entrevistar. Roteiro completo, falas literais, formulário, critérios de saída |
referencias/aprofundar.md |
Quando a resposta ficar rasa. Laddering, incidente crítico, cinco porquês, Kano, cartas de amor e término |
referencias/quem-entrevistar.md |
Ao montar a lista. Papéis de compra, como achar gente, ritmo de prospecção |
referencias/autodiagnostico.md |
Antes de entregar |
Armadilhas nomeadas pelos livros
- Survey no lugar de entrevista. O survey pressupõe que você já sabe as perguntas certas — e, pior, as respostas certas, ao fixar as alternativas. E você não vê a pessoa.
- Focus group. Degenera em pensamento de grupo.
- Enviesar o ranqueamento pela ordem. Reordene a lista de problemas entre entrevistas.
- Conduzir ou vender. Não lidere nem convença ninguém do mérito de um problema.
- Perguntar quanto pagaria. Não há justificativa econômica para o cliente dar outra coisa que não um número baixo — e a pergunta o deixa desconfortável.
- Ficar dentro do prédio. Não existem fatos dentro do prédio, só opiniões.
- Aceitar o problema como enunciado. Parte do seu trabalho é garantir que o problema declarado é o melhor problema a atacar.
- Efeito Hawthorne. As pessoas mudam de comportamento quando sabem que estão sendo observadas.
Antes de registrar pessoas
| Arquivo |
Quando |
../../metodo/consentimento.md |
Antes da primeira entrevista. Como pedir para gravar, e o que fazer se a pessoa recusar |
Técnicas desta quest
Fichas curtas de consulta rápida. Abra quando o procedimento acima mencionar a técnica.
| Ficha |
Para quê |
../../tecnicas/entrevistas.md |
as modalidades e quando usar cada uma |
../../tecnicas/mapa-empatia.md |
tensão entre o que fala e o que faz |
../../tecnicas/personas.md |
refinar com o que a entrevista trouxe |
../../tecnicas/jornada.md |
a jornada atual, com as dores |
Perguntas frequentes
“Posso entrar em qualquer grupo formado depois da Q1?”
Não. Os grupos são balanceados por curso de origem, para que formações horizontais não se concentrem num grupo só e as verticais não se diluam em todos. Se você não estava na formação, procure o professor presencialmente.
“Quantas entrevistas são suficientes?”
Dez é o piso. Mas o critério real não é número: você terminou quando para de aprender — quando consegue prever o que a pessoa vai dizer com duas perguntas de qualificação.
Bibliografia desta quest
| Obra |
O que ela dá para a Q2 |
| Maurya — Running Lean |
A entrevista de problema, cronometrada, com formulário e critério de saída |
| Blank — The Four Steps to the Epiphany |
A escala de dor, os papéis de compra, o ritmo de prospecção |
| Hanington & Martin — Universal Methods of Design |
Laddering, incidente crítico, Kano, cartas de amor e término |
| Stickdorn & Schneider — This Is Service Design Thinking |
Cinco porquês, shadowing, stakeholders |
| Vianna et al. — Design thinking: inovação em negócios |
Dizem/fazem/sabem; arqueologia do artefato; cartões de evocação |
| IDEO — HCD Toolkit · Stickdorn · Hanington |
Bibliografia oficial da quest no site |
Aprofundar
Abra este arquivo quando a resposta ficar rasa: a pessoa respondeu, você anotou, e não há nada ali que você já não soubesse. Cada técnica abaixo resolve um tipo diferente de raso.
Qual técnica para qual raso
| O que aconteceu na entrevista |
Técnica |
O que ela devolve |
| Pediu uma funcionalidade específica |
Laddering |
O valor por baixo do pedido |
| Falou no genérico: “às vezes dá problema” |
Incidente crítico |
Um episódio datado, com causa, ação e desfecho |
| Você entendeu o sintoma, não a origem |
Cinco porquês |
A cadeia causal, inclusive o que o usuário não vê |
| Você tem funcionalidades e não sabe priorizar |
Análise de Kano |
A categoria de cada atributo, inclusive os que pioram a satisfação |
| A pessoa é formal, curta, ou desconhecida |
Cartas de amor e de término |
Sentimento, em formato que dá licença para exagerar |
| Descreve o que faz, e você desconfia |
Arqueologia do artefato |
O que os objetos dizem, independentemente do relato |
| Não verbaliza medo, desejo ou frustração |
Cartões de evocação cultural |
Histórias que ela nunca contaria se perguntadas |
A lista é longa por uma razão. Um mapa clássico da pesquisa em design separa três camadas: o que as pessoas dizem e pensam (explícito, alcançado por entrevista), o que fazem e usam (observável, alcançado por observação) e o que sabem, sentem e sonham (tácito e latente, alcançado por sessões generativas). Entrevista sozinha só chega à primeira camada.
1. Laddering — subir do atributo ao valor
Quando usar: sempre que alguém pedir uma funcionalidade. Separa requisito falso de necessidade real.
Técnica de entrevista individual que torna explícita a ligação entre três níveis:
| Nível |
O que é |
Exemplo do livro (cremes antienvelhecimento) |
| Atributo |
A característica física e óbvia |
ingredientes antienvelhecimento |
| Consequência |
O benefício, o impacto sobre a pessoa |
usa-se para se sentir jovem |
| Valor |
A causa-raiz de por que aquilo ressoa |
saúde, bem-estar e longevidade |
A pergunta que constrói a escada é uma só, repetida: “por que isso é importante para você?”
O exemplo canônico
O caso que todo aluno deveria conhecer, porque é o formato exato em que o erro aparece num projeto de software (adaptado de Hanington & Martin):
— Preciso que vocês adicionem um campo “código do cargo” neste relatório.
— Por que o “código do cargo” é importante para você?
— Porque sou a única pessoa que pode reportar esse dado.
— Por que você é a única responsável?
— Porque é informação confidencial de funcionário.
— Pode me contar mais sobre por que esse dado é confidencial?
— Ajuda a monitorar salários, para garantir que minorias estão sendo pagas com justiça.
A necessidade não era um campo de formulário. Era a importância de salário igual para trabalho igual.
Repare no custo de atender ao pedido literal: entrega-se o campo, a pessoa fica satisfeita naquele dia, e o problema real — monitorar equidade salarial — continua sendo resolvido na mão, por uma pessoa só, num processo frágil. O campo é a gambiarra, e a equipe acabou de automatizá-la.
Os sete valores
A pesquisa citada por Hanington & Martin identifica sete valores frequentes como motivação não dita do comportamento de compra: autoestima, realização, pertencimento, autorrealização, família, satisfação e segurança.
Não use como cardápio. Use como teste: se a sua escada terminou num lugar que não se parece com nenhum dos sete, provavelmente ela parou cedo demais.
Cuidados
Laddering funciona melhor no início do processo de projeto, ou sempre que a discussão interna da equipe travar em funcionalidades. A conversa começa por atributos — é normal; o erro é ficar neles. Cada “por quê?” desloca o foco um passo para longe do produto e um passo para dentro da vida da pessoa: se a resposta ainda menciona a ferramenta, continue.
2. Técnica do incidente crítico
Quando usar: quando a pessoa fala no genérico. “Às vezes trava”, “de vez em quando dá problema”, “geralmente funciona”.
Um incidente crítico é um episódio em que houve uma lacuna entre o resultado esperado e o que de fato aconteceu — para pior ou para melhor. Os dois contam: a tentativa de corrigir uma situação que a piorou, e a decisão simples cujo desfecho surpreendeu positivamente.
Peça que a pessoa descreva retrospectivamente uma situação concreta que, na avaliação dela, terminou bem ou terminou mal. Do relato você extrai cinco coisas:
|
Pergunta |
| Causa |
Que eventos levaram até ali? |
| Ações |
Que comportamentos ocorreram durante? |
| Sentimento |
Como a pessoa se sentiu durante e depois? |
| Desfecho |
Ela mudou de comportamento? O que aconteceria se nada mudasse? |
| Desfecho ideal |
Se o comportamento mudasse, que futuros seriam possíveis? |
Um incidente é efetivo se ajudou a resolver o problema, e inefetivo se falhou, criou problemas novos ou exigiu ações adicionais. Incidentes positivos e negativos são analisados e reportados separadamente — misturá-los apaga o padrão.
⚠️ Sobre o tamanho da amostra. A literatura citada por Hanington & Martin fala em 50 a 100 incidentes para uma amostra de trabalho. Isso não é alcançável numa quest. O que é alcançável: usar a técnica como estrutura de pergunta dentro das suas dez entrevistas, colhendo um ou dois incidentes por pessoa. Você não terá base para inferência estatística — e deve dizer isso na apresentação. Terá episódios concretos e datados, que valem mais que “às vezes dá problema”.
A técnica foi desenvolvida por John C. Flanagan durante a Segunda Guerra, a partir de estudos do programa de psicologia da aviação das Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos.
3. Cinco porquês — descer na cadeia causal
Quando usar: quando você entendeu o sintoma e precisa da origem. Revela etapas do processo que o cliente não vê.
Uma cadeia de perguntas que escava abaixo dos sintomas aparentes de uma experiência para descobrir as motivações na raiz. Quem responde precisa produzir uma explicação convincente para cada etapa do caminho causal.
O exemplo de Stickdorn & Schneider (tradução nossa):
Por que demora tanto para atender um cliente? — Estamos sempre ocupados; sempre há fila na hora do almoço.
Por que há sempre fila na hora do almoço? — É o pico do dia e não temos gente suficiente.
Por que não temos gente suficiente nos picos? — Não há espaço para mais funcionários; eles só atrapalhariam.
Por que não há espaço? — A área de serviço é entulhada: o equipamento é grande e volumoso.
Por que há tanto equipamento ali? — Compramos em lote para economizar, e isso resulta em coisas baratas e volumosas, que depois temos que contornar.
Note onde a cadeia termina: numa política de compras, não num problema de atendimento. Nenhum cliente da fila poderia ter dito isso. É esse o valor da técnica — um benefício explícito é incluir etapas do processo que o cliente não enxerga, o que permite classificar problemas como internos ou externos à organização.
⚠️ O limite de cinco é deliberado, e a justificativa contraria a intuição. Não é “vá até a causa primária”. É o contrário: limitar o caminho a cinco estágios impede que o processo perca relevância ao se afastar demais da pergunta original. Não há promessa de chegar à causa raiz. Há um teto pragmático. Se no quinto porquê você está falando de economia mundial, você passou do ponto.
Cinco porquês não é laddering. Um desce na causalidade (por que isso acontece), o outro sobe na motivação (por que isso importa para você). Misturar os dois numa “árvore de problema” única produz um diagrama que não se sustenta sob pergunta.
4. Análise de Kano — priorizar sem “mais é melhor”
Quando usar: quando você já tem atributos candidatos e precisa decidir o que entra. É a técnica que impede a equipe de tratar toda funcionalidade como ganho.
A tese de partida: acrescentar funcionalidades continuamente — a lógica do “mais é melhor” — é estratégia ineficaz para melhorar a satisfação do cliente. Cada atributo cai numa de cinco categorias.
| Categoria |
Termo original |
Comportamento |
| Obrigatório |
atari mae |
Linha de base. A presença não aumenta satisfação; a ausência tem impacto negativo. Privacidade, segurança e exigências legais entram aqui |
| Desejado |
ichi gen teki |
Relação linear: se tem, o valor percebido sobe; se falta, cai |
| Encantador |
mi ryoku teki |
Surpreende e encanta. Se não estiver lá, em geral não frustra. São as necessidades latentes — a maioria não pensaria em pedir |
| Neutro |
mu kan shin |
Sem sentimento forte nos dois sentidos |
| Anti-atributo |
gyaku |
A presença piora a satisfação. Às vezes o cliente paga mais para não ter — o aplicativo gratuito com anúncios cuja versão paga não os tem — ou escolhe o concorrente que não o usa |
O par de perguntas
Para cada atributo, escreva duas perguntas: se [o atributo] estiver presente, como você se sentiria? e se [o atributo] não estiver presente, como você se sentiria?
Exemplo do livro: “se o wi-fi do hotel for gratuito, como você se sentiria?” / “se o wi-fi do hotel não for gratuito, como você se sentiria?”
Em cada uma, a pessoa escolhe entre satisfeita, neutra ou insatisfeita. O cruzamento define a categoria:
|
Presente: satisfeita |
Presente: neutra |
Presente: insatisfeita |
| Ausente: satisfeita |
questionável |
anti-atributo |
anti-atributo |
| Ausente: neutra |
encantador |
neutro |
anti-atributo |
| Ausente: insatisfeita |
desejado |
obrigatório |
questionável |
As células “questionável” indicam resposta contraditória — normalmente a pergunta foi mal formulada. Não force a resposta numa categoria; refaça.
Por que isso importa na Q2
A escala must-have / nice-to-have / don't need é operacional e rápida, e por isso é o que você usa em campo. Mas ela funde duas coisas diferentes dentro de “don't need”: o neutro (indiferença) e o anti-atributo (rejeição ativa). Só o segundo é informação estratégica.
E a categoria encantador explica por que ausência de reclamação não prova ausência de oportunidade: as necessidades latentes são, por definição, aquelas que ninguém pensaria em pedir — e para as quais ninguém improvisou gambiarra nenhuma.
Hanington & Martin recomendam repetir a análise ao longo do tempo, particularmente quando houver mudança cultural, econômica ou tecnológica, porque essas mudanças reclassificam atributos.
5. Cartas de amor e de término
Quando usar: quando você precisa de sentimento e a conversa está formal. Funciona bem em grupo — oficina, entrevista coletiva, quebra-gelo.
Peça à pessoa que personifique um produto ou serviço e escreva uma carta pessoal a ele. O formato é imediatamente compreendido, e os resultados costumam ser inesperadamente profundos sobre a relação que as pessoas mantêm com os objetos do cotidiano.
|
O que revela |
| Carta de amor |
O que a pessoa sente nos momentos de conexão. Encanto, paixão, lealdade — e por que ela permanece com aquilo mesmo com outros produtos disputando sua atenção |
| Carta de término |
Como, quando e onde a relação azedou; por que se abandona uma marca. As pessoas contam com que produto novo estão felizes agora, e o que ele tem que o abandonado não tinha |
Regras de aplicação: máximo de dez minutos para escrever — prazo maior faz a pessoa pensar demais e a espontaneidade se perde; peça voluntários para ler em voz alta; registre a leitura em vídeo, porque expressão e voz carregam pistas que a carta sozinha não tem; e guarde as cartas físicas como artefato — o cuidado na construção (papel, letra, desenhos) comunica o grau de afeto ou de decepção.
A carta de término é especialmente útil na Q3: ela devolve por que alguém abandonou uma alternativa existente, que é exatamente a lacuna que a análise de similares procura.
Método criado pela Smart Design em 2009.
6. Duas técnicas do repertório brasileiro
Vianna et al. descrevem uma imersão para uma seguradora de automóveis, com entrevistas com segurados e corretores em três grandes cidades brasileiras. Duas técnicas usadas ali cabem bem na Q2.
Arqueologia do artefato. A maneira como as pessoas usam os objetos revela o que elas fazem e pensam, independentemente do que dizem. Na imersão citada, pedia-se para observar onde o segurado guarda a apólice, como o corretor organiza o arquivo, o que o guincheiro guarda no porta-luvas. Na Q2: peça para ver a gaveta, a pasta, o caderno, a tela do celular.
Cartões de evocação cultural. Cartões com imagens capazes de evocar memória e estimular o entrevistado a resgatar histórias que jamais seriam mencionadas. No caso citado, mostrar a imagem de um caixão ou de uma ilha deserta levava o segurado a descrever medos e sonhos; pedir a corretores que organizassem logotipos de seguradoras por critério próprio revelava a relação deles com as marcas — sem que isso tivesse sido perguntado diretamente.
É essa a chave das duas: elas contornam a pergunta direta. Servem quando o assunto é constrangedor, quando a pessoa tem incentivo para dar a resposta socialmente aceitável, ou quando ela não tem palavras para o que sente.
Modo de IA
| Etapa |
Modo |
| Escolher qual técnica se aplica ao seu raso |
com apoio |
| Formular os pares de perguntas de Kano |
coprodução — verifique se cada par testa um atributo e não induz |
| Conduzir laddering, incidente crítico, evocação |
sem assistência |
| Montar a matriz de Kano a partir das respostas |
coprodução — é classificação mecânica |
| Interpretar a escada de laddering |
com apoio — peça que aponte onde a escada parou cedo, não que a complete |
O pedido perigoso: “gere a escada de laddering para o meu problema.” Ela vai gerar, será plausível, e não terá vindo de ninguém.
Fontes
- Hanington & Martin, Universal Methods of Design — métodos 52 (Laddering, o exemplo do “código do cargo”, os sete valores), 22 (Critical Incident Technique), 50 (Kano Analysis, as cinco categorias, o par de perguntas e a matriz), 54 (The Love Letter & the Breakup Letter)
- Stickdorn & Schneider, This Is Service Design Thinking — os cinco porquês, o exemplo da fila do almoço e a justificativa do limite de cinco
- Vianna et al., Design thinking: inovação em negócios — arqueologia do artefato e cartões de evocação cultural, no caso da seguradora; o mapa dizem/pensam · fazem/usam · sabem/sentem/sonham
- Reynolds & Gutman (1982, 1988), Kano, Seraku & Takahashi (1984) e Flanagan (Psychological Bulletin, 1954) — fontes primárias citadas por Hanington & Martin
Entrevista de problema
Abra este arquivo antes de marcar a primeira conversa. Aqui está o roteiro completo, o que dizer em cada bloco, o formulário de registro, o que fazer nos cinco minutos seguintes e como saber que você terminou.
O roteiro vem de Ash Maurya (Running Lean). As falas abaixo são tradução e adaptação nossas ao contexto brasileiro e universitário — o original é sobre um serviço de fotos para pais. O que não muda é a estrutura, os tempos e a ordem.
1. As sete decisões que você toma antes de marcar
Elas parecem detalhe operacional e não são: cada uma protege a entrevista de um viés diferente.
| Decisão |
O que fazer |
Por quê |
| Formato |
Presencial sempre que der |
Você lê linguagem corporal, e o encontro cria proximidade que a chamada de vídeo não recria |
| Local |
Neutro e informal — cantina, praça, corredor do centro acadêmico |
No local de trabalho da pessoa a conversa vira “reunião de negócio” e soa a apresentação de venda |
| Quem vai |
Duas pessoas da equipe, uma conduzindo e outra anotando |
O empreendedor é otimista por natureza e vulnerável ao viés de expectativa — ver o que quer ver. A segunda pessoa é o controle |
| Duração pedida |
20 a 30 minutos, combinados de antemão |
Sem apertar, e respeitando o tempo de quem cedeu |
| Incentivo |
Nenhum. Não pague, não dê brinde |
Em teste de usabilidade incentivo é aceitável; aqui não. Você procura quem pagaria a você, não o contrário |
| Gravação |
Evite |
Maurya relata que gravar deixa parte das pessoas autoconsciente — mais um caso de viés do observador — e que ele nunca voltava a ouvir as gravações |
| Registro |
Cinco minutos imediatamente depois, ainda no local |
Detalhe de memória decai rápido, e o que você lembra depois já está filtrado pelo que você queria ouvir |
O enquadramento que decide tudo: monte a conversa como aprendizado, não como venda. Numa apresentação de venda quem fala é você, e fica fácil para a pessoa fingir que concorda — ou simplesmente mentir. No enquadramento de aprendizado os papéis se invertem: você define o contexto e depois cala a boca. E as pessoas costumam ajudar quando o pedido é de conselho, não de compra.
2. O roteiro, bloco a bloco
Trinta minutos, sete blocos. Não improvise a ordem.
Boas-vindas — preparar o terreno (2 min)
Diga como a conversa vai funcionar. Cinco elementos obrigatórios: agradecimento, de onde veio a ideia, que não há produto pronto, que o objetivo é aprender e não vender, e o pedido de acordo.
Obrigado por reservar esse tempo. A gente está numa disciplina de projeto no CIn e está estudando [o tema]. A ideia surgiu porque [origem concreta e honesta — o que vocês observaram na Q1].
Antes de sair construindo qualquer coisa, a gente quer entender se outras pessoas vivem isso também.
A conversa funciona assim: eu começo descrevendo os problemas que a gente acha que existem, e depois pergunto se algum deles faz sentido pra você. Só reforçando: não existe produto pronto, e o objetivo é aprender com você, não vender nada. Tudo bem assim?
A última frase não é gentileza — é o que autoriza a pessoa a discordar de você.
Coletar demografia (2 min)
Perguntas introdutórias que capturam os atributos pelos quais você pretende segmentar e qualificar o usuário afoito. Escolha antes quais atributos importam; não pergunte tudo.
Se o seu tema é deslocamento no campus, os atributos podem ser: como vem para a universidade, quantas vezes por semana, de onde, em que horário, se paga do próprio bolso. Se o tema é alimentação, são outros. O teste de uma boa pergunta demográfica: a resposta muda a sua segmentação? Se não muda, corte.
Contar uma história (2 min)
Ilustre os problemas com uma narrativa concreta, em primeira pessoa ou a partir do que vocês observaram na Q1 — não com uma lista abstrata.
Depois que a gente passou a semana passada observando [o lugar], notou uma coisa: [descrição factual do que foi visto, com detalhe]. Aí conversando com quem estava lá, apareceu [o incômodo]. Parece que [consequência].
Alguma coisa disso ressoa com você?
Se o bloco da história for genérico, tudo o que vem depois vira concordância educada.
Ranqueamento dos problemas (4 min)
Enuncie de um a três problemas e peça que a pessoa os ordene. Termine com uma pergunta aberta.
Especificamente:
— Você também [problema 1]?
— [Problema 2] te atrapalha?
— [Problema 3] acontece com você?
— Tem algum outro incômodo nisso que eu não citei?
⚠️ Reordene a lista entre uma entrevista e outra. A ordem em que você enuncia enviesa o ranqueamento. Isso é fácil de esquecer e barato de corrigir: mantenha três versões impressas do roteiro, com a lista em ordens diferentes, e alterne.
A última pergunta — a aberta — é onde aparecem os problemas que você não tinha imaginado. Se ela nunca rende nada em dez entrevistas, o problema é o clima da conversa, não o entrevistado.
Explorar a visão de mundo (15 min)
Metade do tempo total. O melhor roteiro aqui é “sem roteiro”.
Vá problema por problema. Pergunte como a pessoa lida com aquilo hoje, e depois se cale. Deixe entrar em tanto detalhe quanto ela quiser. Faça perguntas de seguimento, mas não lidere e não convença ninguém do mérito de um problema — nem de uma solução.
As quatro perguntas que sustentam o bloco:
- Como você faz isso hoje?
- Consegue me guiar pelo passo a passo?
- Que ferramentas, apps ou artefatos você usa? Como você ficou sabendo deles?
- Pode me mostrar?
Enquanto ela responde, você faz duas coisas simultâneas:
- Classifica. Além da resposta literal, julgue postura e tom para estimar como ela classificaria aquilo: must-have, nice-to-have ou don't need.
- Confere. Este bloco existe também para confirmar o ranqueamento anterior. Às vezes a pessoa mente sem perceber — por educação ou porque não sabe. Se declarou must-have e não está fazendo nada a respeito, há uma desconexão, e ela é o achado.
Se surgir um problema novo no meio, explore-o do mesmo jeito. Não volte ao roteiro para “cumprir o roteiro”.
Fechamento — gancho e pedido (2 min)
Três coisas, nesta ordem: um gancho, a permissão de retorno e o pedido de indicação.
O gancho existe porque você ainda não vai falar da solução em detalhe, mas precisa deixar algo memorável — uma frase curta que a pessoa consiga repetir para outra. Maurya usa o formato “X sem Y”, construído sobre a alternativa existente que a própria pessoa acabou de citar.
Como eu disse no começo, não existe produto pronto. Mas a ideia é [frase de uma linha, ancorada no que ela usa hoje].
Com base no que a gente conversou, você toparia ver isso quando tiver alguma coisa pronta?
E a gente está procurando conversar com mais pessoas como você. Você conhece alguém que passa por isso e que poderia me apresentar?
O pedido de indicação é o que sustenta o ritmo das semanas seguintes. Peça em todas as entrevistas, inclusive nas ruins.
Documentar (5 min)
Nos cinco minutos seguintes, antes de qualquer outra coisa. Cada um da dupla preenche o formulário sozinho, primeiro. Só depois vocês comparam e consolidam uma entrada única. Preencher junto contamina: o primeiro a falar ancora o segundo.
3. O formulário de registro
Estrutura mínima, adaptada de Maurya. Faça em formulário eletrônico — não em papel solto — porque no fim da semana você vai precisar cruzar respostas.
ENTREVISTA DE PROBLEMA
Data: ____________ Local: ____________ Quem conduziu / quem anotou: ____________
CONTATO
Nome: ______________________ Contato: ______________________
Como chegamos até essa pessoa: ______________________
DEMOGRAFIA (os atributos que vocês escolheram para segmentar)
[atributo 1]: ______ [atributo 2]: ______ [atributo 3]: ______
PROBLEMA 1: ______________________________________________
Posição no ranqueamento: ____
Intensidade (must-have / nice-to-have / don't need): ____
Como resolve hoje: ______________________________________
Está satisfeita com isso? (sim / não / convive): ____
Tem gambiarra? Qual: ____________________________________
PROBLEMA 2: (idem)
PROBLEMA 3: (idem)
PROBLEMAS NOVOS QUE ELA TROUXE: __________________________
PALAVRAS DELA (verbatim — as expressões que ela usou para descrever o processo)
__________________________________________________________
DESCONEXÃO OBSERVADA (declarou must-have e não faz nada? declarou irrelevante e improvisou solução?)
__________________________________________________________
INDICAÇÕES: ______________________________________________
NOTAS: ___________________________________________________
Dois campos merecem explicação.
Palavras dela (verbatim). O melhor jeito de descobrir as palavras-chave da sua futura PUV é ouvir com atenção como o cliente descreve o próprio fluxo de trabalho. Anote a expressão exata, não a sua paráfrase. Isso é insumo direto da Q5.
Desconexão observada. É o campo que separa a entrevista útil da entrevista simpática. Registre a contradição sem resolvê-la ali.
4. Revisão em lote, no fim da semana
Não mude o roteiro durante a semana. Junte o lote inteiro, revise no fim, ajuste, e rode a semana seguinte com a versão nova. Trocar o roteiro no meio destrói a comparabilidade — você perde a capacidade de dizer se o sinal mudou porque as pessoas mudaram ou porque a pergunta mudou.
O que se ajusta na revisão semanal:
| Sinal no lote |
Ajuste |
| Um problema levou don't need em bloco |
Tire do roteiro |
| Apareceu um must-have que não estava previsto |
Entre no roteiro da semana seguinte |
| Um subgrupo respondeu muito melhor que o resto |
Estreite a demografia nessa direção |
| Um subgrupo respondeu mal em bloco |
Abandone esse segmento |
| Uma expressão se repetiu em várias bocas |
Marque — é candidata a virar o vocabulário da PUV |
O objetivo declarado do ajuste é obter, a cada lote, sinal mais forte e mais consistente que o lote anterior. Se o sinal não melhora entre semanas, o problema está no segmento, não no roteiro.
O destino final desse afunilamento é um problema must-have — que é o mesmo que dizer uma proposta única de valor.
5. Critérios de saída
Você terminou quando entrevistou pelo menos 10 pessoas e consegue:
Dez é o piso formal. O critério real é outro: você terminou quando para de aprender — quando consegue prever com precisão o que a pessoa vai dizer depois de duas ou três perguntas de qualificação.
Para calibrar expectativa: Maurya recomenda preparar-se para 30 a 60 entrevistas em quatro a seis semanas, e no estudo de caso dele foram 15 antes de a equipe sentir que entendia o problema. Num semestre de Projetão, dez é uma meta honesta por oportunidade investigada — e é bem mais do que a maioria das equipes faz.
6. Modo de IA neste procedimento
| Etapa |
Modo |
O que vale |
| Escolher os atributos demográficos e escrever a história do bloco 3 |
com apoio |
A IA critica o roteiro, aponta pergunta que induz resposta, sugere onde você está vendendo em vez de perguntar |
| A entrevista |
sem assistência |
Não há como terceirizar. Se a IA participou, isso invalida o levantamento e precisa ser declarado |
| Transcrição e organização do lote |
coprodução |
Organizar, agrupar, contar. Mas a classificação must-have / nice-to-have é sua — ela depende de tom e postura que só quem estava lá viu |
| Síntese semanal |
com apoio |
Peça à IA que aponte contradições entre entrevistas e que liste o que os dados não sustentam, antes de pedir conclusão |
Um pedido útil à IA depois do lote: “aqui estão as dez fichas; me diga quais afirmações da minha síntese não estão sustentadas por nenhuma delas.”
7. Os modos de falha desta entrevista
- Virou pitch. Você falou mais que a pessoa. Sintoma: o campo “palavras dela” está vazio.
- Ranqueamento enviesado pela ordem. Você leu a lista sempre igual.
- Aceitar o must-have declarado. Não conferiu se ela faz alguma coisa a respeito.
- Perguntar quanto pagaria. Não há razão econômica para o cliente responder outra coisa que não um número baixo — e a pergunta o constrange. Se você precisa mesmo testar disposição a pagar, o teste é um pedido real, não uma pergunta hipotética.
- Trocar entrevista por formulário. O formulário pressupõe que você já sabe as perguntas certas e, ao fixar as alternativas, as respostas certas. Ele serve depois, para verificar quantitativamente o que a entrevista revelou — nunca antes.
- Só entrevistar quem já concorda com você. Amigos servem para treinar o roteiro e para chegar a gente dois ou três graus adiante. Não servem como amostra.
- Não documentar na hora. Duas horas depois você já não tem a entrevista; tem a sua interpretação dela.
Fontes
- Maurya, Ash, Running Lean, cap. 6 e 7 — o roteiro cronometrado, o formulário, os critérios de saída, a revisão semanal em lote, as sete decisões logísticas, a âncora das alternativas existentes
- Blank, Steve, The Four Steps to the Epiphany — a apresentação de problema como quebra-gelo que elicita em vez de convencer; “não tente convencer o cliente de que ele tem o problema que você descreve”
- Krug, Steve, Rocket Surgery Made Easy, citado por Maurya — “recrute com folga e avalie na curva”
Quem entrevistar
Abra este arquivo ao montar a lista de pessoas. Ele responde três perguntas: quem você precisa ouvir (os papéis), como achar essas pessoas, e o que dizer ao pedir a conversa.
1. Os seis papéis de compra
A regra base do Projetão — cliente é quem paga, usuário não paga — é um começo, e é grosseira demais para sustentar um projeto. Steve Blank decompõe o lado do cliente em cinco papéis, mais um sexto que ninguém procura e que aparece sozinho.
| Papel |
Quem é |
O que ele decide |
Onde erra a equipe |
| Usuário final |
Quem usa no dia a dia — aperta os botões, toca, ama e odeia o produto |
Nada, em muitos casos |
Assumir que quem usa decide. Crianças são um grande mercado consumidor e usuárias de muitos produtos — quem compra são os pais |
| Influenciador |
Quem acha que tem participação na entrada do produto na empresa ou na casa |
Opina, e é ouvido |
Ignorar o técnico da área ou o filho de dez anos cujas preferências moldam a escolha da família |
| Recomendador |
Também influencia, mas com uma diferença: pode fazer ou quebrar a venda |
Veta ou endossa |
Confundir com influenciador. O chefe de departamento que decreta “os computadores novos serão da marca X” é recomendador, não influenciador |
| Comprador econômico |
Quem tem o orçamento e precisa aprovar a despesa |
Libera ou não o dinheiro |
Não descobrir quem é. Pode ser o adolescente com verba semanal de música, ou o cônjuge com o orçamento da viagem |
| Decisor |
Pode ser o comprador econômico, ou alguém acima dele. Tem a palavra final, independentemente de todos os anteriores |
Decide |
Parar no comprador econômico |
| Sabotador |
Quem perde estabilidade, quadro de pessoal, verba ou espaço se o seu produto entrar. Você não vai procurá-lo — ele vai ver você chegando |
Atrasa, complica, esvazia |
Achar que só existe em empresa grande. Na compra doméstica, pode ser o membro da família que se acostumou com o carro velho e não quer dirigir algo diferente |
Nem todo produto tem hierarquia tão complexa. Mas quase toda venda envolve mais de uma pessoa. Em produto de consumo os papéis continuam existindo, só que com nomes familiares: mãe, pai, filho, colega de apartamento, coordenador do curso.
O que fazer com o sabotador
É o papel mais esquecido e o que mais mata piloto dentro de organização. A recomendação de Blank é operacional, não retórica: preveja quem seria mais ameaçado pelo seu produto, entenda a influência dessa pessoa na organização, e monte uma estratégia que na pior das hipóteses neutralize essa influência e na melhor a converta em aliada.
No Projetão isso costuma aparecer quando a equipe propõe um sistema que substitui o trabalho manual de alguém — a pessoa que hoje é a única que sabe fazer o processo, e cuja importância vem exatamente disso. Se você não a entrevistou, não sabe se o projeto entra.
2. O mapa de influência
A entrega da Q2 não é um par binário cliente/usuário. É um mapa de influência, e ele se monta em duas etapas.
Etapa 1 — mapa organizacional. Liste todas as pessoas que você consegue imaginar influenciando a decisão de compra, e desenhe quem cerca o usuário do produto. Na venda para empresa, inclua cargo e posição na estrutura. Na venda para consumidor o diagrama parece enganosamente simples — mas o consumidor também tem uma teia de influenciadores.
Etapa 2 — mapa de influência. Sobre o mapa organizacional, responda: quem precisa ser convencido, e em que ordem, para que a adoção aconteça? É isso que transforma uma lista de pessoas num mapa.
Formato sugerido para a entrega:
| Papel |
Nome/função concreta |
Já entrevistamos? |
O que essa pessoa ganha |
O que essa pessoa perde |
Precisa ser convencida antes de quem? |
| Usuário final |
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| Influenciador |
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| Recomendador |
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| Comprador econômico |
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| Decisor |
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| Sabotador |
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Duas colunas fazem o trabalho pesado. “Já entrevistamos?” expõe o buraco: quase sempre a equipe ouviu só o usuário final. “O que essa pessoa perde” é o que produz o sabotador — se todas as linhas estão em branco ali, você ainda não pensou no assunto.
Se o comprador econômico já tem orçamento previsto para algo do seu tipo, anote. Se você vai precisar convencê-lo a criar verba, isso é um risco de projeto, não um detalhe.
A escala de reconhecimento do problema, aplicada por papel
Blank propõe classificar cada tipo de cliente — usuário, influenciador, recomendador, comprador econômico, decisor — num de três estágios de reconhecimento do problema:
| Estágio |
O que caracteriza |
| Necessidade latente |
A pessoa tem o problema, ou tem o problema e sabe que tem |
| Necessidade ativa |
Reconhece o problema, está em dor e procura ativamente uma solução — mas ainda não fez nenhum trabalho sério para resolvê-lo |
| Visão |
Tem ideia de como seria a solução, pode até ter montado uma solução caseira e, no melhor caso, está preparada para pagar por algo melhor |
O ponto operacional: os papéis costumam estar em estágios diferentes. O usuário final pode estar em “visão”, com a gambiarra montada, enquanto o comprador econômico está em “latente” e nem sabe que existe um problema. Essa defasagem é a explicação mais comum para projetos que agradam a todos e não são adotados por ninguém.
3. Como achar as pessoas
O princípio de partida
Comece por quem você já conhece e que se encaixa no perfil. Depois use essas pessoas para chegar a dois ou três graus de distância. Isso serve para duas coisas ao mesmo tempo: você treina o roteiro com quem não custa caro errar, e consegue apresentações quentes para quem custa.
Sobre a objeção previsível — “amigo é amostra enviesada”: é verdade, e a resposta de Maurya é direta. Falar com alguém é melhor que falar com ninguém. Use amigos e família para praticar o roteiro e para chegar a gente mais distante, não como base de conclusão.
Uma lista de 50
Blank recomenda montar uma lista de 50 contatos potenciais antes de começar. Parece muito e acaba rápido. As fontes que ele lista, traduzidas para a realidade de uma equipe do CIn:
| Fonte de Blank |
Equivalente no Projetão |
| Redes sociais e amigos |
Grupos de curso, entidades estudantis, WhatsApp de bairro |
| Recrutadores, advogados, contadores |
Professores, técnicos administrativos, coordenação |
| Revistas e livros de referência do setor |
Associações, sindicatos, conselhos profissionais da área do tema |
| Investidores e fundadores |
Empresas do Porto Digital, incubadoras, egressos |
| — |
As pessoas que vocês observaram na Q1. Voltem lá |
Priorize, sempre que possível, encontrar pessoas pelo mesmo canal que você usaria para conquistar clientes de verdade. Se você só consegue entrevistar quem chega por indicação pessoal, isso já é uma informação sobre a viabilidade do seu canal.
A lista paralela: inovadores
Junto com a lista de contatos, monte uma lista de inovadores — empresas, departamentos ou pessoas da sua área que são respeitadas e costumam estar à frente do assunto. Em produto de consumo, é a pessoa a quem todo mundo pede opinião sobre o tema.
Ela serve para duas coisas: essas pessoas “entendem” ideias novas com menos atrito, e a lista vira o começo de um conselho consultivo informal.
E a pergunta que mantém a lista crescendo, feita em toda entrevista: “quem é a pessoa mais preparada que você conhece nesse assunto?”
Amplie antes de estreitar
Um erro comum é filtrar cedo demais em busca do usuário afoito perfeito. Lance uma rede mais larga no começo, para não travar num máximo local, e estreite entre os lotes semanais. Você terá oportunidade de apertar o filtro na rodada seguinte.
4. O que dizer ao pedir a entrevista
Modelo A — pedido de apresentação, para você mandar a um conhecido
Adaptado de Maurya. Duas partes: a mensagem para o conhecido, e o texto pronto que ele encaminha. A segunda parte existe porque quanto menos trabalho o intermediário tiver, mais provável é que ele encaminhe.
Oi [nome], tudo bem? Tenho um pedido rápido.
Estou numa disciplina de projeto no CIn e a gente está tentando entender melhor a rotina de [público]. A ideia é conversar com algumas pessoas para entender o dia a dia delas e avaliar se vale a pena seguir com o projeto.
Se você conhecer alguém que se encaixe, ficaria muito grato se pudesse encaminhar a mensagem abaixo. Pode adaptar como quiser.
Olá,
Sou aluno do Centro de Informática da UFPE. Estou numa disciplina de projeto em que a gente está estudando [tema, em uma frase concreta].
Gostaria muito de 30 minutos do seu tempo para entender como é o seu dia a dia em [atividade]. Não estou vendendo nada — estou pedindo conselho, e o que a gente aprender vai definir se o projeto continua ou não.
Posso ir até onde for melhor para você. Tem algum horário nesta semana?
Obrigado,
[nome]
Três elementos não são opcionais: “não estou vendendo nada”, o pedido explícito de conselho, e o tempo declarado. Sem eles a pessoa não sabe em que está entrando e recusa por precaução.
Modelo B — abordagem fria, por telefone ou mensagem
Blank chama isso de história de referência. Ela tem quatro partes, nesta ordem: quem indicou, o problema que você tenta entender, o que você quer, e o que a pessoa ganha.
Oi, aqui é [nome], do CIn/UFPE. Como você viu, fui indicado pelo [nome de quem indicou].
A gente está estudando [o problema] e queria entender como você e a sua equipe lidam com isso hoje. Não quero vender nada — quero vinte minutos para entender o seu processo.
Achei que você poderia me dar uma visão sobre isso e, em troca, posso compartilhar o que a gente levantou até agora sobre como esse assunto está sendo tratado em outros lugares.
A última frase é a contrapartida, e ela precisa ser verdadeira. Se você não tem nada para devolver ainda, ofereça o que terá: o relatório da pesquisa, um resumo dos achados. Transformar a conversa numa entrevista de verdade — com direito a um texto, um post ou um vídeo publicado — é uma contrapartida que funciona.
Duas frases que ajudam a abrir portas:
- A referência. “Fulano me disse para falar com você” transpõe barreiras que nenhuma outra frase transpõe. Por isso você pede indicação em toda entrevista.
- A carta local. Maurya observa que enfatizar a cidade no corpo da mensagem foi eficaz para marcar reuniões — as pessoas topam mais quando conseguem se identificar com quem pede. “Somos alunos daqui do Recife, do CIn” faz trabalho real.
E quando a pessoa recusa
Sempre pergunte: “se você está sem tempo, com quem eu deveria falar?” A recusa que devolve um nome custou nada e valeu uma entrevista.
5. Ritmo de prospecção
Os números de Blank e Maurya, e a tradução honesta para um semestre de Projetão.
|
Blank / Maurya |
Numa quest |
| Lista inicial |
50 contatos |
20 a 30 nomes concretos, com nome e forma de contato |
| Chamadas por dia |
10, por fundador, até encher a agenda |
Uma rodada de contatos por dia útil, dividida na equipe |
| Taxa de conversão |
50 contatos → 5 a 10 visitas marcadas |
Espere a mesma ordem de grandeza. Se 20 contatos rendem 2 entrevistas, está normal |
| Entrevistas por semana |
10 a 15 |
10 é a meta da quest, e é agressiva |
| Total |
30 a 60 pessoas em 4 a 6 semanas |
10 por oportunidade investigada |
Duas práticas que economizam tempo:
- Guarde estatísticas de acerto. Que história de referência funcionou melhor? Que fonte de contato rendeu mais? Você está mais eficaz falando com que tipo de pessoa? Isso se descobre contando, não lembrando.
- A maior fonte de desperdício é a espera — esperar retorno, cruzar agendas. Concentre a agenda: reserve blocos fixos de horário em que qualquer entrevista cabe, e ofereça esses blocos.
E a expectativa emocional, que vale dizer em voz alta: acostume-se a ser recusado. Maurya descreve o próprio percurso de aversão ao contato direto com cliente; Blank descreve encarar o telefone, dar voltas em torno dele e não ligar. Não é sinal de que você não serve para isso. É a parte chata, e ela passa.
6. Modo de IA
| Etapa |
Modo |
Observação |
| Montar o mapa de influência a partir do que você já ouviu |
com apoio |
A IA pergunta “quem mais toca nisso?” e aponta papéis vazios |
| Gerar hipóteses de sabotador |
coprodução |
Bom uso: peça três candidatos a sabotador e o que cada um perderia. Você confere em campo |
| Redigir a mensagem de pedido de entrevista |
coprodução |
Gere variações, escolha uma, e mande você mesmo, do seu contato |
| Encontrar as pessoas |
sem assistência |
Achar gente é o trabalho da quest, não um resultado a ser gerado |
| Estimar quantas pessoas o problema atinge |
com apoio |
Qualquer número que a IA der precisa ser conferido na fonte primária antes de entrar na apresentação |
Fontes
- Blank, Steve, The Four Steps to the Epiphany, cap. 3 — os cinco tipos de cliente mais o sabotador; o mapa organizacional e o mapa de influência; a escala de reconhecimento do problema (latente / ativa / visão); a lista de 50, a lista de inovadores, a história de referência, o ritmo de 10 chamadas por dia e a taxa de 50 contatos para 5–10 visitas
- Maurya, Ash, Running Lean, cap. 6 — começar por contatos de primeiro grau; o modelo de mensagem para encaminhamento; a carta local; oferecer contrapartida; ampliar antes de estreitar; 30 a 60 pessoas em 4 a 6 semanas; a resposta à objeção do viés de amigos
Autodiagnóstico
Faça este exercício antes de entregar. É o mesmo que o mentor vai fazer depois.
O milestone que abre aqui
A Q2 alimenta o milestone Usuário — clareza sobre quem é o usuário/consumidor potencial. É o primeiro dos 13, e a aprovação exige nível 4 em todos. A escala 0–5 está em metodo/avaliacao.md.
O salto que trava a maioria é o 3 → 4. Na Q2 ele tem nome preciso: sair de “achamos que o usuário é assim” para “conversamos com dez pessoas e o padrão é este, com estas exceções”.
Rubrica por dimensão
1. Campo — quantas pessoas, e quem
|
|
| 2 |
Três ou quatro conversas informais, com gente do próprio círculo, sem roteiro. |
| 3 |
Sete a dez entrevistas com roteiro, mas todas com o mesmo tipo de pessoa. |
| 4 |
Dez ou mais entrevistas com roteiro cronometrado, cobrindo mais de um papel de compra, com registro individual. |
| 5 |
O acima, mais um segundo lote depois de revisar o roteiro, com sinal demonstravelmente mais forte. |
2. Definição do usuário afoito
|
|
| 2 |
Demografia genérica, que serviria para qualquer projeto (“jovens de 18 a 30, classe B”). |
| 3 |
Perfil com comportamento, mas sem o que separa quem sentiu a dor de quem não sentiu. |
| 4 |
Atributos que qualificam: com duas ou três perguntas vocês preveem se a pessoa tem o problema. |
| 5 |
O acima, mais os segmentos descartados e por quê. |
3. Intensidade do problema
|
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| 2 |
Os problemas estão listados sem classificação, ou todos foram classificados como must-have. |
| 3 |
Classificação feita, mas apoiada só no que a pessoa declarou. |
| 4 |
Classificação conferida contra comportamento: para cada must-have, vocês dizem o que a pessoa faz hoje a respeito. |
| 5 |
O acima, com uma desconexão nomeada — alguém que declarou must-have e não age, ou o contrário — e a leitura dela. |
4. Alternativa existente e gambiarra
|
|
| 2 |
“Não existe nada parecido” — resposta que quase nunca é verdadeira. |
| 3 |
Alternativas listadas por busca na web, não por relato de campo. |
| 4 |
Para cada problema, como o cliente resolve isso hoje, com nome, custo e satisfação; gambiarras descritas, não só citadas. |
| 5 |
O acima, mais o registro de quem não faz nada e convive bem — o que delimita o tamanho da oportunidade. |
5. Mapa de influência
|
|
| 2 |
Um par cliente/usuário, sem mais. |
| 3 |
Papéis nomeados, mas só o usuário final foi entrevistado. |
| 4 |
Os papéis do contexto mapeados, dois deles entrevistados, e uma hipótese explícita de sabotador. |
| 5 |
O acima, com a ordem em que cada papel precisaria ser convencido, e o que cada um perde. |
6. Escolha das 2–3 oportunidades
|
|
| 2 |
As oportunidades são a solução que a equipe já queria fazer, escrita ao contrário. |
| 3 |
São problemas de verdade, mas a escolha entre eles não está justificada. |
| 4 |
Cada uma tem evidência de campo, evidência de mídia ou publicação, e a resposta à bifurcação — dor aguda em grupo limitado ou dor branda em público grande, com número. |
| 5 |
O acima, mais o que foi descartado e o critério do descarte. |
Checklist rápido
Sinal de alerta: se nenhuma das dez entrevistas mudou nada no seu entendimento, ou o roteiro estava vendendo em vez de perguntando, ou você só falou com quem já concordava.
Segundo sinal: se os seus 2–3 problemas são “as pessoas não têm um app para X”, isso é a sua solução escrita ao contrário.
Registro de trajetória (modo de IA)
Meia página, entregue junto. Ver metodo/modo-ia.md para o racional.
Modo em que a quest foi feita, e onde você saiu dele.
Na Q2 a entrevista é sem assistência e o roteiro é com apoio. Se a IA gerou perguntas que foram a campo sem revisão sua, diga.
O que a IA gerou e você descartou — e por quê.
Típico da Q2: uma lista plausível de “dores do usuário” gerada a partir do tema, antes de qualquer entrevista. Mantê-la como hipótese a testar é correto; entregá-la como achado de campo, não.
O que você verificou, e como.
Típico da Q2: o número de mercado da pergunta 8 da entrega. Diga qual afirmação você foi conferir, em que fonte, e o que encontrou de diferente.
O que ainda não sabe.
Exemplos honestos: “não falamos com nenhum comprador econômico”; “só ouvimos gente do turno da manhã”.
Como o mentor vai ler
Quatro perguntas que aparecem com regularidade na apresentação da Q2. Se você responde às quatro, está em 4.
- “Quantas pessoas vocês entrevistaram, e quem eram?” Resposta fraca: “várias, do público-alvo”. Forte: número, papéis, como chegaram até elas.
- “Como essas pessoas resolvem isso hoje?” Se a resposta for “não resolvem”, não ter encontrado a alternativa existente é falha de entrevista, não ausência de concorrente.
- “Alguém está fazendo alguma coisa a respeito, ou só reclamou?” É o teste que separa dor real de resposta educada.
- “O que vocês ouviram que não esperavam ouvir?” Não ter resposta indica campo confirmatório.
Divergência entre a sua auto-avaliação e a leitura do mentor é informação útil, não constrangimento.