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Projetão

Projetão

Metodologia

Como as quests se encadeiam, o que muda com IA na mesa, quanto tempo cada semana custa, e como um projeto é medido ao longo do semestre.

Nesta página
  1. Visão geral
  2. Modo de IA
  3. Carga de trabalho
  4. Avaliação

Visão geral

De onde vem

O Projetão é um framework de projeto de inovação criado e desenvolvido na UFPE desde 2002, idealizado originalmente pelos professores Geber Ramalho e Cristiano Araújo (Centro de Informática), Luciano Meira (Psicologia) e André Neves (Design). A disciplina reúne estudantes de cursos diferentes em equipes que precisam se auto-gerenciar, e termina num evento público — o Demoday — onde os projetos são apresentados a uma banca de profissionais do mercado.

O princípio de ensino que organiza tudo é “aproximar a sala de aula do mundo real”: formar quem acha o problema, e não apenas quem executa a ideia de outra pessoa.

Origem, fundadores e princípio conforme o site institucional da disciplina (projetao.cin.ufpe.br), consultado em agosto de 2026.

A lógica das dez quests

Cada quest responde a uma pergunta, e a resposta de uma é insumo da seguinte. Pular etapa não economiza tempo — desloca o retrabalho para mais adiante, quando ele custa mais caro.

        ┌─ DIVERGE: sair a campo e ampliar ────────────┐
  Q1  Temáticas .................... que assunto?
  Q2  Oportunidades ................ que dores?
  Q3  Análise de Similares ......... quem já tentou?
        └──────────────────────────────────────────────┘
                        ▼
  Q4  Oportunidade Escolhida ....... ⚠️ CHECKPOINT — converge para UMA
                        ▼
        ┌─ CONSTRÓI: da aposta ao produto ─────────────┐
  Q5  Proposta Única de Valor ...... que valor só nosso?
  Q6  MVP & Prova de Conceito ...... menor produto que entrega
  Q7  Modelo de Receita ............ como se paga?
  Q8  Prototipação & Usabilidade ... o usuário consegue usar?
        └──────────────────────────────────────────────┘
                        ▼
        ┌─ ENTREGA ────────────────────────────────────┐
  Q9  Plano de Projeto ............. como chegamos lá
  Q10 Preparação para o Demoday .... como isso é contado
        └──────────────────────────────────────────────┘

Q1 a Q3 divergem. O trabalho é ampliar: mais lugares, mais pessoas, mais problemas, mais alternativas. Fechar cedo aqui é o erro que mais reprova projeto.

Q4 converge. É checkpoint formal — os professores validam a escolha contra as evidências. Daqui em diante a equipe tem um problema só.

Q5 a Q8 constroem. Da aposta de valor ao produto testado com gente.

Q9 e Q10 entregam. Planejar a execução e contar a história.

Quem alimenta quem

Se você está na… precisa ter fechado… e vai alimentar…
Q2 os lugares e personas da Q1 a escolha da Q4
Q3 os 2–3 problemas da Q2 a PUV da Q5
Q4 os similares e vazios da Q3 tudo o que vem depois
Q5 a oportunidade e o usuário afoito da Q4 o escopo do MVP na Q6
Q6 a PUV e a curva de valor da Q5 o preço da Q7 e o teste da Q8
Q7 o MVP da Q6 de volta ao escopo do MVP
Q8 o MVP definido na Q6 e o efeito do preço da Q7 — o protótipo é construído aqui, não antes as mudanças no plano da Q9
Q9 tudo o que ainda falta construir o que dá para demonstrar na Q10
Q10 o produto e os números a banca

Se você chegou a uma quest sem o insumo dela, o correto não é improvisar — é voltar.

Vocabulário da disciplina

Termos com sentido específico aqui. Usar com o sentido corrente gera confusão nas apresentações.

Termo Significa
Quest Uma das dez entregas semanais da disciplina. Cada uma tem perguntas próprias e uma apresentação.
Temática Assunto amplo dentro do qual se procuram oportunidades. Não é o projeto.
Problema / dor Algo que incomoda significativamente — a ponto de a pessoa pagar ou adotar solução. Não é ausência de software.
Gambiarra Solução improvisada que compensa a falta de solução adequada. Sua presença valida a dor — não a disposição a pagar —, e só conta se a pessoa estiver insatisfeita com ela.
Usuário × Cliente Usuário usa; cliente paga. Podem ser pessoas diferentes, com expectativas diferentes.
Similares Concorrentes + referências.
Concorrente Quem desempenha função semelhante — não quem se parece materialmente.
Referência / inspiração Solução de outro domínio que entrega valor de um jeito que interessa. Informa primeiro o quê e quanto vale; usá-la como molde do como produz curva convergente.
Valor Benefício percebido, tangível ou intangível. Não é funcionalidade.
PUV O valor que só a sua solução entrega.
Vantagem de lascar O que não pode ser facilmente copiado ou comprado. Diferente da PUV.
Usuário afoito (early adopter) Quem topa usar antes de estar pronto porque a dor é forte — e tem, ou consegue, orçamento. Ver a escala de cinco degraus na Q4.
MVP Produto mínimo viável — escopo pequeno, produto inteiro.
PoC Prova de conceito: teste barato, antes do MVP, de que o usuário vê valor.
Curva de valor Gráfico comparando produto e concorrentes pelos fatores de competição do setor — não só funcionalidades: preço, canal, marca e serviço entram. Ordem das ações: eliminar → reduzir → elevar → criar.
ARM Aquisição, Retenção, Monetização.
Milestone Um dos 13 critérios de maturidade, medidos de 0 a 5.
Demoday Evento final de apresentação, com banca do mercado.

As frases que atravessam tudo

Três eixos, na redação canônica. Se você encontrar outra redação em algum material, esta é a que vale.

Não projetamos para nós mesmos; projetamos para os outros.

Toda afirmação sobre o usuário precisa de evidência de campo.

Se a máquina fabrica o produto, avaliar o produto mede a máquina.

E duas formulações da disciplina que dizem a mesma coisa por outro ângulo:

  • A competência mais importante é identificar problemas e resolvê-los — não ser a mão que executa a ideia de um cliente.
  • Não é a convicção de alguém, mas a demonstração empírica com base em evidências, que define o caminho do projeto.

Uma nota sobre a numeração

A metodologia já teve 9 quests. A Q4 atual (Oportunidade Escolhida & Organização da Equipe) foi acrescentada depois, como checkpoint, e tudo de Q4 em diante deslocou uma posição.

Material antigo — inclusive a página de Visão Geral e a planilha de maturidade publicadas no site — ainda usa a numeração de 9. Esta skill está inteiramente na numeração atual de 10 quests. Se você encontrar divergência entre um material da disciplina e o que está aqui, é provavelmente isso.

Ver avaliacao.md para o mapeamento corrigido dos 13 milestones.

Modo de IA

Leia isto antes de trabalhar em qualquer quest. Vale para o aluno e para a IA que o acompanha.

A premissa

Todo aluno usa IA. Não é concessão nem tolerância — é o ponto de partida da disciplina. Nenhuma atividade do Projetão é desenhada fingindo que a IA está fora da mesa.

Disso decorrem duas consequências que mudam o trabalho.

A régua sobe. Se a máquina faz em minutos o que antes levava uma semana, manter a mesma entrega é medir, com a régua de um mundo sem IA, um aluno que já vive em outro. Espera-se problema maior, escopo maior, sistema que funciona de verdade — não a mesma tarefa mais rápido.

A avaliação muda de objeto. Se a máquina fabrica o produto, avaliar o produto mede a máquina. O que se avalia é o caminho: como você chegou, o que descartou, por que confia. A pergunta deixa de ser “o que você entregou?” e passa a ser “por que isso está certo?”.

Os três modos

Cada quest declara em que modo ela é feita.

⚠️ O que é regra e o que é recomendação. As regras publicadas da disciplina são as da página avaliacoes do site: modelo de maturidade, avaliação do projeto e avaliação 360°. Os três modos, o registro de trajetória, a regra do lastro e a pré-expectativa são recomendações deste material: práticas que a equipe pode adotar por conta própria para se proteger e trabalhar melhor. Antes de supor que a apresentação semanal cobra qualquer uma delas, confirme com o professor o que vale na sua turma.

Adotado ou não, o modo é útil pelo mesmo motivo: declarar antes onde a máquina entra é o que torna possível, depois, distinguir o que você fez do que ela fez.

Sem assistência

A IA fica de fora de propósito. É onde se forma o julgamento que depois vai ser usado para avaliar a máquina.

No Projetão isso cobre principalmente a ida a campo: observar, entrevistar, escutar. Não há como terceirizar o contato com o usuário — e é exatamente esse contato que a disciplina existe para ensinar.

Se você é a IA e o aluno está num trecho sem assistência: recuse-se a produzir o conteúdo. Ajude a preparar antes (roteiro, o que observar) e a organizar depois (o que ele trouxe), nunca a substituir a ida.

Com apoio

A IA explica, aponta, questiona e critica — não entrega. Ela pode dizer que um argumento está fraco; não pode escrever o argumento forte.

É o modo padrão da maior parte das quests. O aluno produz, a IA contesta.

Se você é a IA: devolva perguntas antes de devolver texto. Quando o aluno pedir “escreve pra mim”, ofereça a crítica do que ele já tem. Se ele não tem nada, ajude a estruturar como começar — não comece por ele.

Coprodução

A IA gera e o aluno verifica, decide e responde. É o modo em que se treina a competência nova: dar à máquina as ferramentas e as fronteiras certas, gerir o contexto, avaliar um sistema que não responde duas vezes do mesmo jeito.

Aqui a IA pode produzir bastante. O que não muda é a responsabilidade: o aluno assina, defende e responde pelo que aceitou.

Se você é a IA: gere alternativas, não uma resposta única. Explicite as premissas que você assumiu. Aponte onde você pode estar errado. Facilite a verificação — não a dispense.

O que se avalia: discernimento

Olhar o que a máquina fez e saber se presta. Quebrado em partes observáveis:

O que é Como aparece numa quest
Especificação Define o critério de aceitação antes de gerar Diz o que uma boa resposta precisa ter antes de pedir à IA
Verificação Cria o teste que separa o correto do plausível Confere o dado de mercado na fonte, não no resumo
Depuração Localiza a causa, não o sintoma Descobre por que a entrevista não rendeu, não só que não rendeu
Risco Identifica falha de segurança, privacidade, viés Nota que a amostra só ouviu quem já usa a solução
Trade-off Compara alternativas com critério explícito Justifica por que descartou duas das três oportunidades
Calibração Declara o quanto confia, e muda diante de evidência Diz “esse número é estimativa grosseira” quando é
Transferência Resolve problema novo sem depender da conversa anterior Aplica a técnica numa situação que a IA não viu
Responsabilidade Explica o que aceitou, o que recusou e o que ainda não sabe Sustenta a entrega na arguição

O registro de trajetória

Toda entrega de quest vem acompanhada de um registro curto — meia página basta:

  1. Modo em que a quest foi feita, e onde você saiu dele (se saiu).
  2. O que a IA gerou e você descartou — e por quê. Este é o item mais informativo dos quatro.
  3. O que você verificou e como. Que afirmação você foi conferir na fonte?
  4. O que ainda não sabe. Incerteza declarada não tira ponto; incerteza escondida, sim.

Não é burocracia de controle. É o material sobre o qual a nota é formada — e o único jeito de o mérito do aluno aparecer quando o artefato poderia ter saído de qualquer lugar.

O que a disciplina não faz

  • Não usa escore de detector de IA como prova. Detectores erram de forma desigual: num teste com redações do TOEFL escritas por humanos, sete detectores classificaram como geradas por IA 61% das redações de quem não é falante nativo de inglês, contra 5% das de nativos (Liang, Yuksekgonul, Mao, Wu & Zou, GPT detectors are biased against non-native English writers, arXiv:2304.02819, 2023 — publicado em Patterns). ⚠️ O estudo mede texto em inglês; não há medida equivalente para português, e um contra-estudo do ETS com detectores mais recentes encontra viés menor (Jiang, Bosch, Attali & LaFlair, Do AI detectors discriminate against non-native English writers?, ETS Research, 2024). O ponto que sustenta a decisão não depende do número exato: detector produz suspeita, não prova, e o erro não se distribui por igual.
  • Não trata declaração de não-uso como mecanismo de controle. Além de não ser cumprida pela maioria, expõe justamente quem declara com honestidade.

O que substitui os dois é mais trabalhoso e é o que forma: avaliar o processo e o raciocínio.

Duas obrigações que valem nos dois sentidos

Acesso. Assumir que todo aluno usa IA e deixar cada um arcar sozinho com a ferramenta converteria capacidade de pagamento em desempenho. A disciplina se compromete a viabilizar acesso por modelos gratuitos, quotas e parcerias. Se você está sem acesso, isso é problema da disciplina, não seu — avise.

Custo. Use o modelo adequado à tarefa, não o maior por reflexo, e declare a escolha quando ela for relevante. Formar alguém para usar bem uma tecnologia inclui formá-lo para perguntar quanto ela custa — e não apenas em dinheiro.


Baseado no manifesto do Porto Digital sobre formação em tecnologia na era da IA (Residência Tecnológica, 2026). A adoção no Projetão está em curso: o que funcionar e o que não funcionar será medido e publicado.

Carga de trabalho

Leia isto antes de planejar a semana. Vale para o aluno e para a IA que o acompanha.


O problema que esta página resolve

O material das quests descreve o trabalho bem feito. Se você tentar executar tudo o que cada quest sugere, vai gastar entre 12 e 30 horas por semana.

⚠️ A referência de orçamento usada nesta página é uma premissa, não um dado da disciplina. Assumimos 8 a 12 horas por aluno por semana, o que corresponde a uma disciplina de 4 a 6 créditos. O site do Projetão não publica carga horária, e a palavra “crédito” não aparece em nenhuma das suas páginas. Confirme o número com o professor: se o seu for outro, os cortes desta página mudam junto.

Quando o material pede mais do que cabe, o aluno não corta proporcionalmente. Ele corta o campo — porque o campo é a parte que ninguém vê, e a leitura é a parte que dá vocabulário para escrever uma entrega que parece boa.

É exatamente o comportamento que a disciplina existe para impedir. Por isso cada quest tem, aqui, um mínimo declarado.

Se você tiver de cortar, corte leitura e profundidade — nunca o campo.


A regra de três camadas

Toda quest se divide em três:

Camada O que é Se faltar tempo
Núcleo O que produz a evidência. Sem isso a quest não existe Nunca corte
Estrutura O que organiza a evidência em resposta Simplifique o formato, não o conteúdo
Profundidade Técnicas adicionais, leitura de referência, refinamento Corte primeiro, e declare que cortou

Declarar o corte não tira ponto. Fingir que não cortou, sim — porque a incoerência aparece na quest seguinte.


Por quest

Os tempos são por aluno, numa equipe que dividiu o trabalho. O piso de campo é por equipe.

Quest Núcleo — não corte Piso de campo Núcleo (h) Com profundidade (h)
Q1 Temáticas 1 ida a campo, registro estruturado, personas rastreáveis, 1 dado externo conferido 1 visita de 2h, 2 lugares por equipe 5–6 14–17
Q2 Oportunidades Entrevistas até parar de aprender, com registro; 1 gambiarra observada; árvore de problema 10 entrevistas por equipe (não por aluno) 6–8 14–18
Q3 Similares “Como você resolve hoje?” a campo; lista com valores × funcionalidades; 1 vazio identificado 5 pessoas confirmando as alternativas 5–6 10–14
Q4 Escolha Ranqueamento por dor e alcance; usuário afoito nomeado; jornada atual 3 conversas de confirmação 5–7 12–16
Q5 PUV Curva dos concorrentes; matriz ERRC com “eliminar” preenchido; PUV em 1 frase testada 5 pessoas ouvindo a frase 5–7 12–16
Q6 MVP & PoC Escopo mínimo justificado; 1 prova de conceito barata testada 5 pessoas na PoC 8–12 20–30
Q7 Receita Custos com o trabalho incluído; ponto de equilíbrio; preço perguntado a clientes 5 clientes no teste de preço 5–7 13–17
Q8 Prototipação Construir o protótipo navegável + teste com tarefas, pensar em voz alta, os 3 problemas mais sérios 3 usuários por rodada, ao menos 2 rodadas 9–14 20–28
Q9 Plano Cronograma com donos; caminho crítico; base de testes contatada 5 pessoas confirmadas na base 4–6 12–15
Q10 Demoday Roteiro de 8 min ensaiado cronometrado; demo com plano B; limitações declaradas 1 ensaio com plateia externa 5–7 10–14

Q6 e Q8 são as quests mais pesadas do semestre, e por motivos diferentes: a Q6 concentra a decisão de escopo, a Q8 constrói o artefato testável e o testa na mesma semana. As saídas legítimas:

  • Q6 — escolher uma prova de conceito que não exija construir (encenação, papel, concierge), ou dividir a construção em duas semanas e declarar isso no plano.
  • Q8 — começar o protótipo na semana da Q7, em paralelo; ou reduzir o escopo do navegável a um único fluxo (o da PUV) em vez da interface inteira. O que não dá para cortar é o teste: protótipo não testado não produz achado, e é o achado que a quest cobra.

⚠️ Não planeje a Q8 pela estimativa da Q6. Quem faz isso chega ao dia do teste sem o que testar.

Duas semanas em que o núcleo ocupa a semana inteira

Some as colunas: o núcleo da Q6 é 8–12 h e o da Q8 é 9–14 h, contra as 8–12 h de orçamento assumido acima. Nessas duas semanas não sobra margem — o mínimo inegociável já é a semana toda, ou mais.

Isso não é erro de conta: é a característica dessas duas quests, e dizê-la em voz alta vale mais que uma estimativa confortável e falsa. As consequências práticas:

  • Planeje as duas com antecedência de uma semana. O escopo do MVP na Q6 e o protótipo na Q8 são as únicas coisas do semestre que dá para adiantar sem furar o método.
  • Distribua entre a equipe. Os números da tabela são por aluno; numa equipe de cinco, construir o protótipo é trabalho paralelizável, ir a campo também. O que não paralela é a decisão.
  • Se estourar mesmo assim, corte leitura e profundidade a zero nessas duas semanas — e diga isso na apresentação. Entregar o núcleo e declarar o que ficou de fora vale mais que entregar tudo pela metade.
  • Não corte o campo. Vale aqui como vale nas outras oito.

O que “piso de campo” significa

É o mínimo abaixo do qual a quest não tem evidência. Pela regra do lastro, sem evidência o teto do milestone é nível 3, por mais bem escrita que esteja a entrega (⚠️ recomendação deste material, não regra publicada — ver avaliacao.md). Mesmo onde ela não vigora, o piso continua valendo pelo motivo original: entrega sem campo não tem o que defender na apresentação.

O piso é sempre por equipe, não por aluno. Numa equipe de sete, dez entrevistas são uma ou duas por pessoa.

E o piso não é meta: o critério real é parar quando você para de aprender — quando consegue prever o que a pessoa vai dizer com duas perguntas de qualificação. Se isso acontecer com sete, pare em sete e diga por quê. Se não tiver acontecido com trinta, você ainda não terminou.


Como declarar um corte

Uma linha no registro de trajetória, no item 4 (“o que ainda não sei”):

Cortamos a análise de auditoria de experiência da Q3 por falta de tempo. Ficamos com a lista de alternativas e a tabela de valores. Consequência: não sabemos onde a experiência do concorrente quebra, só o que ele entrega. Se isso importar na Q5, voltamos.

Isso custa trinta segundos e faz três coisas: mostra que a equipe sabe o que deixou de fazer, protege a coerência das quests seguintes, e dá ao mentor a informação de que ele precisa para calibrar.


Para a IA que acompanha

Quando o aluno pedir ajuda com uma quest, pergunte quanto tempo ele tem antes de propor o roteiro completo.

  • Se ele tem a semana inteira, use a quest como está.
  • Se ele tem menos, monte o plano a partir da coluna Núcleo desta tabela, e diga explicitamente o que ficou de fora e qual a consequência.
  • Nunca proponha cortar o piso de campo. Se o tempo não dá para o campo, o problema é de planejamento da equipe, não de escopo da quest — e a resposta certa é remarcar, não substituir campo por raciocínio.

Se o aluno disser que não vai dar tempo de ir a campo, não preencha o buraco com plausibilidade. Diga que a entrega vai ficar com teto de nível 3, e ajude a planejar a semana seguinte.

Avaliação

Quatro instrumentos rodam em paralelo: o modelo de maturidade (semanal, diagnóstico), a avaliação do projeto (final, nota), a avaliação 360° (dos pares, ajuste individual) e o registro de trajetória (semanal, o que separa o aluno da máquina).

⚠️ Três são regra; o quarto é recomendação. Modelo de maturidade, avaliação do projeto e avaliação 360° são o que a página avaliacoes do site da disciplina descreve. O registro de trajetória — e com ele a regra do lastro e a pré-expectativa, mais abaixo — é recomendação deste material, não regra publicada. Nada aqui substitui o enunciado do professor: se ele não pediu, não é exigência. Está aqui porque o problema que ele resolve é real, e porque a equipe que o adota sozinha se protege:

O quarto existe por um motivo declarado:

Se a máquina fabrica o produto, avaliar o produto mede a máquina.

Os três primeiros instrumentos avaliam o artefato. Sozinhos, eles medem cada vez menos o aluno — e essa é a razão de o quarto existir. Ver modo-ia.md.


1. Modelo de maturidade — 13 milestones, escala 0–5

Acompanhado semanalmente. Não gera nota: gera diagnóstico. Serve para a equipe saber onde está frágil enquanto ainda dá tempo de consertar.

Aprovação exige nível 4 em todos os 13. Um projeto com doze cincos e um dois não está pronto.

A escala

Nível Significado
0 O critério ainda não aparece no projeto.
1 Já aparece, mas sem clareza nem coerência. Normal na primeira vez que o tema é tocado.
2 Falta clareza ou falta coerência com o resto. A resposta ainda está no terreno da insegurança.
3 Coerente, mas ainda não totalmente claro. Há amadurecimento, resta uma parcela de incerteza.
4 Claro e coerente com toda a proposta. Ainda cabe aperfeiçoar, mas a equipe responde com segurança.
5 Perfeitamente alinhado ao conjunto. As respostas às questões de projeto são sólidas.

O salto que trava a maioria das equipes é o 3 → 4: sair de “faz sentido” para “eu sustento isso sob pergunta”. Quase sempre o que falta não é redação — é evidência de campo.

⚠️ A escala tem um ponto cego, e ele piora com IA. Do 3 para cima, a diferença entre os níveis é descrita em termos de clareza, coerência e segurança na resposta — exatamente as qualidades que um texto bem gerado exibe sem que nenhum trabalho tenha sido feito. Um nível 5 escrito por máquina é mais elegante que um nível 4 escrito por quem foi a campo e voltou confuso.

Por isso, do 4 para cima o nível exige artefato, não redação. Ver a regra do lastro, logo abaixo.

A regra do lastro

⚠️ Recomendação deste material — não é regra publicada da disciplina. Ver o aviso no topo.

Para pontuar 4 ou 5 em qualquer milestone, a equipe precisa apresentar, junto com a resposta, pelo menos um artefato de trabalho — algo que existe porque o trabalho foi feito, e que não seria produzido por quem apenas escreveu bem sobre ele.

Vale como lastro Não vale
Foto do campo, com data Descrição do que foi observado
Áudio ou anotação bruta de entrevista Resumo da entrevista
Nome e contato de quem foi ouvido (com consentimento) “Entrevistamos 14 pessoas”
Post-its ou quadro de afinidades fotografado A conclusão do agrupamento
Gravação de tela do teste de usabilidade Lista de problemas encontrados
Link e captura da fonte do dado, com data de acesso O número citado
Registro de pré-expectativa datado (ver abaixo) A afirmação de que houve surpresa

⚠️ O lastro é material de terceiros — trate-o como tal. Foto, áudio, gravação de tela e contato pertencem a quem foi ouvido, não à equipe. Antes de coletar qualquer um deles, leia consentimento.md. E o lastro não circula: ele fica no repositório da equipe, e o professor o consulta ali, quando avalia. Não vai para o slide, não vai para o grupo da turma, não entra em documento que sai da disciplina. Quem promete “só a minha equipe e o professor” e depois publica um trecho quebrou a promessa que fez em campo.

Lastro não precisa ser bonito nem organizado. Precisa ser anterior à conclusão e custoso de fabricar.

A pré-expectativa — o único registro que não dá para forjar depois

⚠️ Recomendação deste material — não é regra publicada da disciplina. Ver o aviso no topo.

Antes de ir a campo, a equipe escreve o que espera encontrar, e envia — com carimbo de data — para o canal da disciplina. Uma frase por item basta.

Isso custa dez minutos e resolve o problema mais difícil da avaliação: retroativamente, qualquer um consegue escrever que foi surpreendido. Ninguém consegue escrever, antes, uma expectativa que depois se prove errada de um jeito específico.

Na apresentação, a equipe compara o que escreveu com o que achou. A divergência é o dado. Equipe cuja pré-expectativa bateu 100% ou não foi a campo, ou não observou.

Os 13 critérios

Milestone Do que trata Começa na quest
Usuário Clareza sobre quem é o usuário/consumidor potencial Q2
Problema Compreensão do problema efetivo que se tenta resolver Q3
Similares Profundidade sobre concorrentes, práticas e boas referências Q3
PUV Identificação de um valor único a entregar, como centro da inovação Q5
Solução Maturidade da proposta e de como ela resolve o problema Q6
Prova de conceito Validação da solução conceitual junto ao usuário Q6 ⚠️
MVP / Implementação Amadurecimento do produto mínimo que entrega os valores validados Q6
Estratégias de tração Como a equipe se aproxima e constitui um grupo de usuários afoitos Q7
Tração efetiva Transformação em negócio real; divulgação e promoção Q7
Testes de usabilidade O que a equipe aprendeu testando, e como a solução mudou Q8
Plano de projeto Organização da equipe, processo produtivo, divisão de responsabilidades Q9
Modelo de receitas Custos, preço, formas de obter recursos Q7
Pitch Clareza para quem não acompanhou o projeto por meses Q10

⚠️ Correção de numeração. A planilha de maturidade publicada no site do Projetão foi escrita quando a disciplina tinha 9 quests. Depois entrou a Q4 (Oportunidade Escolhida & Organização da Equipe) e tudo de Q4 em diante deslocou uma casa. A tabela acima já está corrigida para as 10 quests atuais. Se você comparar com a planilha original, verá as referências antigas — a diferença é essa, não é erro seu.

⚠️ Um milestone mudou de lugar por decisão, não por renumeração. A planilha original põe Prova de conceito na quest anterior — que, pelo deslocamento acima, seria a Q5. Aqui ela está na Q6, porque a Q6 se chama literalmente “MVP & Prova de Conceito” e é onde a validação com usuário acontece. Todos os outros doze milestones seguem o deslocamento de +1 exato; este é o único em que houve escolha. Se o seu professor cobrar a prova de conceito já na Q5, siga o professor — e saiba que a diferença é esta.

Índices de saúde da equipe

Registrados junto com os milestones:

  • Tamanho da equipe — quantos alunos a compõem
  • Presença — quantos estão na apresentação
  • Engajamento — a razão entre os dois

Engajamento é o melhor preditor isolado de projeto que termina mal. Queda sustentada nesse índice antecede, com regularidade, entrega incompleta no Demoday. Se a sua equipe está caindo, isso é um problema de projeto — não de frequência.


2. Registro de trajetória — o que separa o aluno da máquina

Entregue junto com cada quest. Meia página. É o instrumento que responde “por que isso está certo?” em vez de “o que você entregou?”.

O que ele contém

  1. Modo de IA em que a quest foi feita, e onde vocês saíram dele.
  2. O que a IA gerou e vocês descartaram — e por quê.
  3. O que vocês verificaram, e como. Que afirmação foram conferir na fonte primária?
  4. O que ainda não sabem.

Como ele é lido — e por que não basta escrevê-lo bem

Este registro é, sozinho, o item mais fácil de fabricar do material inteiro: descrever com elegância o erro de uma IA é justamente a tarefa em que a IA é boa. Uma equipe pode produzir um registro convincente sem ter descartado nada.

Três coisas tornam isso caro, e as três são baratas de exigir:

Lastro no item 2. “Descartamos a persona que a IA propôs” não vale nada. Cole a persona descartada. O artefato descartado é gratuito para quem descartou de verdade e trabalhoso para quem não descartou.

Rastro no item 3. “Conferimos o dado na fonte” não vale nada. Diga qual afirmação, qual fonte, qual data de acesso, e o que estava diferente do que a IA disse. Verificação que não achou nenhuma divergência em dez semanas é verificação que não aconteceu.

Consistência ao longo do semestre. Este é o mecanismo mais forte, e é praticamente gratuito. As dez quests se encadeiam: o usuário afoito da Q4 tem de ser um dos ouvidos na Q2; os concorrentes da Q3 têm de aparecer na curva da Q5; a base de testes da Q9 tem de ser gente citada antes. Fabricar dez semanas coerentes entre si custa mais que fazer o trabalho — e a incoerência aparece sozinha na comparação.

Não se avalia um registro de trajetória isolado. Avalia-se a série.

O que a disciplina não faz

  • Não usa escore de detector de IA como prova. Detectores erram de forma desigual: num teste com redações do TOEFL escritas por humanos, sete detectores classificaram como geradas por IA 61% das redações de quem não é falante nativo de inglês, contra 5% das de nativos (Liang, Yuksekgonul, Mao, Wu & Zou, GPT detectors are biased against non-native English writers, arXiv:2304.02819, 2023 — publicado em Patterns). ⚠️ O estudo mede texto em inglês; não há medida equivalente para português, e um contra-estudo do ETS com detectores mais recentes encontra viés menor (Jiang, Bosch, Attali & LaFlair, Do AI detectors discriminate against non-native English writers?, ETS Research, 2024). O ponto que sustenta a decisão não depende do número exato: detector produz suspeita, não prova, e o erro não se distribui por igual.
  • Não trata declaração de não-uso como mecanismo de controle. Além de não ser cumprida pela maioria, expõe justamente quem declara com honestidade.

E uma coisa dita em voz alta, porque fingir o contrário seria pior: o modo sem assistência não tem fiscalização. Nada impede um aluno de abrir outra aba. O que sustenta o modo não é vigilância — é o fato de que, sem o campo, ele não terá lastro para pontuar 4, e a incoerência entre as quests vai aparecer. O modo é um contrato, e o custo de quebrá-lo é diferido, não imediato.


3. Avaliação do projeto — nota 0 a 10

Feita pelos professores sobre o projeto ao final da disciplina. Considera:

  • Completude — da concepção até a execução e o pleno funcionamento
  • Inovação — a solução precisa trazer inovação na sua elaboração
  • Especificidades — cada disciplina tem exigências próprias que precisam aparecer
  • Resultados — qualidade do trabalho, levando em conta o amadurecimento ao longo do semestre e as considerações da banca no Demoday
  • Trajetória — a série de registros semanais: o que a equipe descartou, o que verificou, e o quanto o projeto mudou por causa de evidência

O último critério é o que traz o processo para dentro da nota. Sem ele, a avaliação final mede o artefato — e o artefato, hoje, pode vir de qualquer lugar.

A banca do Demoday é formada por profissionais do mercado. Ela influencia a nota, mas não a determina: julga o resultado apresentado, sem ter acompanhado o processo de aprendizado do semestre.

Cada equipe tem um professor mentor, que acompanha de perto e atua como advogado da equipe na avaliação — ele é quem conhece as dificuldades que o resultado final não mostra. E é ele quem tem a série completa de registros de trajetória.


4. Avaliação 360° — ±2 pontos

Cada aluno avalia cada colega da própria equipe em três dimensões:

  • Engajamento — atenção dada ao trabalho, envolvimento, colaboração nas tarefas
  • Produtividade — quanto cada um trabalhou e entregou
  • Convivência — o quanto as relações têm sido colaborativas, respeitosas e fluidas

O resultado soma ou subtrai até 2 pontos sobre a nota de projeto do grupo, individualizando a nota de cada aluno.

Como o cálculo funciona, e por que isso importa: o valor é calculado sobre o desvio do aluno em relação à média da própria equipe — não em relação a uma régua absoluta. Consequências práticas:

  • Avaliar todo mundo com nota máxima não beneficia ninguém: se todos estão na média, todos ficam em zero de ajuste.
  • Numa equipe que trabalhou bem por igual, o ajuste tende a zero — o que é o resultado correto.
  • Numa equipe desequilibrada, o instrumento separa. É desenhado para isso.

Autodiagnóstico ao fim de cada quest

Faça o exercício antes que ele seja feito por outros:

  1. Que milestone esta quest alimenta?
  2. Em que nível de 0 a 5 você se coloca?
  3. Qual artefato sustenta esse nível? — se a resposta é “acho que ficou bom”, o nível é 2. Se é um texto bem escrito e nada mais, o teto é 3.
  4. O que faltaria para chegar a 4?

Divergência entre a auto-avaliação da equipe e a leitura do mentor é informação útil, não constrangimento. Equipe que se dá 5 no que o mentor vê como 2 tem um problema anterior ao do projeto.